Por ignorância ou por descrédito, o inesperado anúncio do leilão de privatização da BR-163, entre Sinop/MT e Santarém/PA na semana passada, não teve repercussão em Mato Grosso e nem no país, apesar de sua relevância estratégica.
Todavia, ao ser feito pela presidência da República ele atingiu dois objetivos. Resolver o imbróglio da pavimentação/manutenção dessa importante rodovia, como também comunicar subliminarmente ao mercado, pós Davos, dos compromissos desse governo, com um determinado modo de gestão.
Dessa maneira, estará totalmente nas mãos de empresas privadas a pavimentação, duplicação e manutenção da BR-163, cortando MS/MT e parte do Pará. Até o mundo mineral sabe da importância dessa rodovia para o escoamento da produção do Centro Oeste e especialmente Mato Grosso. Mesmo nas condições atuais da BR-163, faltando quase 300 km de asfalto até Santarém, a Bunge escoará em 2014 cerca de 3 milhões de toneladas de soja por Miritituba (Itaituba/PA).
Na esteira desse investimento em logística pelo Arco Norte há cerca de 10 outros projetos, visando construir terminais de transbordo em Santarém ou Miritituba, cada qual com capacidade para 3-4 milhões de toneladas. Em 2016 a expectativa é contar com capacidade instalada de 16 milhões de toneladas objetivando o escoamento de grãos, o que dá a dimensão da marcha acelerada com que os empreendimentos serão implantados.
A Odebrecht, empresa vencedora do 1º leilão da BR-163, com os emblemáticos preços de R$ 2,68 por 100 km rodados entre praças de pedágio, anunciou que está realizando estudos para implantar armazéns ao longo dela e terminal em Miritituba. Depreende-se de toda essa movimentação, que essa BR é uma jóia da coroa, hoje desejada por tantos, e por tudo mais que possa significar essa refundação estratégica dos modais de transporte, nesse “hinterland” brasileiro.
Esse anúncio governamental permite ampliar o horizonte de planejamento da atividade agrícola, até como um contraponto às eventuais quedas dos preços de commodities. É possível estimar que no curto prazo devam ocorrer impactos positivos nos preços recebidos pelos produtores, não só pela redução dos custos dos fretes rodoviários, dado o encurtamento das distâncias até um porto, como também pela redução dos fretes marítimos, com a ampliação da capacidade do Canal do Panamá permitindo a passagem de navios com até 150.000 toneladas. É a aurora de um novo tempo possibilitando melhorar a renda dos agricultores do Brasil Central, que por décadas carregam um sonho aparentemente utópico.
Rui Alberto Wolfart é engenheiro agrônomo, especializado em administração, ex-gestor público na área fundiária e produtor rural em Mato Grosso.
(Fonte G1)
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