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30 de mar. de 2011

Os desafios de Belo Monte

Os incidentes ocorridos no canteiro de obras da Usina de Jirau, no Rio Madeira, servem de alerta e exemplo para os construtores da Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. A rebelião de trabalhadores é injustificável do ponto de vista do ordenamento jurídico brasileiro, mas explicável considerando uma série de fatores que extrapola uma visão estritamente legalista. Observar os erros cometidos em Rondônia é fundamental para superar os enormes desafios que surgirão em Belo Monte.

Os relatos de trabalhadores e empresários ligados às obras da Usina de Jirau demonstram que a situação era tensa há bastante tempo e se agravou à medida que as pressões por antecipar a entrega das obras aumentavam. Não foi por falta de aviso que a rebelião explodiu. Diretores da Energia Sustentável do Brasil (ESBR), dona da concessão da usina, não se furtaram em avisar a alta administração da empresa sobre a gravidade da situação e a iminência de um conflito de proporções catastróficas.

Num ambiente hostil, condições de trabalho um tanto quanto difíceis - especialmente no período chuvoso - os trabalhadores ainda eram obrigados a agüentar pressões de chefes autoritários, controlados por empresas terceirizadas que, muitas vezes, acreditavam estar administrando um campo de concentração - ou um convento, dada a rigidez da disciplina. Enquanto isso, o alto escalão só se preocupava com uma coisa: antecipar o cronograma da obra, já apertado em sua programação inicial.

Recentemente, um diretor da Norte Energia (NESA), empresa que detêm a concessão de Belo Monte,  disse para empresários de Altamira que, tão logo comecem as obras da usina, as pessoas da sociedade local terão pouco tempo para questionar ou se posicionar contra o empreendimento. Imagina o diretor que todos estarão ocupados demais tentando ocupar um dos postos de trabalho abertos com a obra ou, no caso de empresários, tentando conseguir uma boquinha como fornecedor.

Ledo engano. O exemplo de Jirau, para quem pretende aprender com os erros dos outros e não com os seus próprios, serve muito para a Norte Energia. Só mesmo um rematado desconhecedor da região para imaginar que a sociedade se esquecerá de cobrar aquilo que lhe é de direito. E é preciso conhecer muito pouco a personalidade humana para não saber que um aglomerado de 20 mil peões trabalhando em uma obra grandiosa como esta é sempre um barril de pólvora pronto a explodir a qualquer momento.

A sociedade da região de Belo Monte, ao contrário do que supõem certas mentes colonialistas do eixo Sul-Sudeste, está disposta a reivindicar cada uma das obrigações da Norte Energia. E dá mostras de querer muito mais do que emprego para mão-de-obra barata e alguns salamaleques em troca. Quer transformar a usina em um verdadeiro modelo de sustentabilidade e desenvolvimento, mesmo a contragosto daqueles que enxergam apenas um empreendimento econômico.

Espera-se que os incidentes em Jirau sirvam para que aqueles que estão chegando a Altamira com esta mentalidade mudem de opinião. Ou sejam retirados do projeto, antes que causem estragos como a lamentável rebelião de Jirau, que marcará para sempre a história da construção daquela e de outras usinas hidrelétricas no Brasil.

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